sábado, 5 de novembro de 2011

O Homem Nu

No ano de 1987 fui transferido para São Paulo pela empresa em que trabalhava. Durante quatro meses ficamos hospedados em um apartamento-hotel em Itaim Bibi. Era uma "glória" para mim, afinal tendo todas aquelas mordomias sentia-me "poderoso". Era mês de dezembro, estava bem quente e a atmosfera natalina pairava no ar! Como estava "solteiro" pois minha família viria meses depois, adquiri um hábito um tanto extravagante: chegava esbaforido do trabalho, tirava toda a roupa e ia até a varanda por alguns segundos para espreguiçar-me. Confiava que o vidro fumê que a cercava me garantiria a intimidade. Imbuído pelo espírito das festas, resolvi comprar uma pequena árvore de Natal para dar um toque pessoal a decoração padrão do hotel. Num destes dias extremamente quentes cheguei ainda mais suado, peguei um folheto que o hotel havia deixado sobre a mesinha, fui à varanda. De repente uma lufada de vento entrou pela porta. Intuitivamente fechei a porta de correr para não derrubar a decoração! Clique! A desgraçada trancou por dentro! Estava eu ali, completamente nu, e na mão o livreto "Acompanhantes de aluguel"! Nada de pânico Ney - pensei! Não havia ninguém nas varandas circunvizinhas... Lá embaixo! Na piscina tinha um cara! Comecei a gritar e gesticular mas talvez pelo fato de estar no décimo-terceiro andar, ele até olhava mas não entendia... ou achou que estava louco! Foi embora! Sem problemas! Sabendo que o vizinho de baixo era o meu chefe e logo chegaria, desmontei o livreto e com um dos grampos escrevi sobre a foto de uma enorme nádega que havia na página central: "SOCORRO ESTOU PRESO NA VARANDA PELO LADO DE FORA! NEY". Para garantir que o bilhete cairia na varanda abaixo, com o restante da publicação fiz uma rabiola para soltar o documento no momento certo! Eis que passados alguns minutos de tentativa surge no balcão inferior esquerdo duas crianças que riram e imediatamente entraram para chamar a mãe!!! Logo que a senhora veio expliquei bem constrangido o ocorrido. Logo depois sobem dois funcionários com aquela risadinha irônica e me libertaram...
Fiquei surpreso ao saber que aqueles vizinhos eram os filhos e esposa do GERENTE DE PESSOAL da minha empresa!!
Mas o mais surpreendente é que ainda trabalhei sete anos lá!!!

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Cratera da Lua

Estávamos nós passeando na Praça Sãens Peña em plena idade adolescente, todos por volta de 12 a 15 anos. Explicando quem éramos: eu, Ney e meus irmãos "branquinhos" Luiz Carlos e Antônio Carlos respectivamente com nossas mães Neusa e Nair. Era o ano de 1969 e o homem acabara de pisar na lua. Havia recém aberto uma sorveteria chamada "Apolo 11" em homenagem a tal façanha. No balcão havia uma enorme lua de fibra de vidro cujas crateras serviam ao mesmo tempo como ventilação e comunicação entre o público e os sorveteiros. Depois de quarenta minutos na fila finalmente chegamos a "cratera dos pedidos". Como Luiz era o mais ávido pediu incisivamente: "Um Armstrong (nome do primeiro astronauta a pisar na lua) de creme!". - Hãaaam? Não ouviu o atendente. "UM ARMSTRONG DE CREME!" Repetiu mais alto - Hãaaaam?  "UM ARMSTRONG DE CREME!" ainda mais alto. Vendo que o funcionário não o entendia, Luis introduziu sua cabeça na "cratera" e fez o seu pedido. Quando foi retirará-la teve problemas devido ao crânio avantajado(e por esta razão tornou-se um professor muito inteligente) e as orelhas grandes. Ficou entalado! E começaram as piadinhas: - Passa um chantili! - Chama os bombeiros! As mães apavoradas tentavam puxá-lo! Nada! Eu e Antônio não podíamos fazer nada já que o sorvete nos ocupava. A esta altura a estrutura começou a tremer e de repente a enorme lua pendeu para frente fazendo com que a multidão se espalhasse e num "crack!" veio tudo abaixo! Pânico e correria, crianças chorando, uma velha senhora que passava por ali gritou: - Quem mandou tocar a lua? É a vingança da natureza!!! 
Passado o susto e com ninguém ferido vimos Luiz levantar-se da multidão já livre daquele adereço. Ele teve que contentar-se com um "Chicabon" da carrocinha já que tivemos que correr dali rapidinho!
Antonio depois que parou de rir não teve maiores traumas. Chato mesmo foi a manchete do jornal O Dia na manhã seguinte: "Cabeça de menino entala em cratera lunar".

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Amor Próprio

Amor alheio sempre dá confusão
O meu vizinho tentou, acabou num caixão
Amor emprestado dá pra viver
O problema é quando tem que devolver
Amor alugado até convence
Mas, verdade seja, não nos pertence
Amor próprio, solução verdadeira
Aquele que é nosso... a vida inteira

O Soldadinho de Chumbo sem Cabeça


Encontrei-o no lixo, lá no prédio onde morava. Estava de uniforme azul brilhante, portava um fuzil caprichosamente pintado de prateado, calça grená com uma listra branca do lado. Ostentava um boné vermelho... boné vermelho? Bom, pelo menos era isso que eu imaginava porque faltava-lhe a cabeça! Um soldadinho de chumbo sem cabeça! Para quem aos sete anos não tinha nenhum, era fascinante aquele boneco pesadinho, diferente daqueles de plástico. Não que faltasse outros brinquedos mas este tornou-se muito especial. Dormia com ele por baixo do travessseiro e nas noites de pesadelo era ele quem me acudia. Herói das minhas aventuras solitárias, era leal e destemido!! Foi com este companheiro acéfalo que descobri que a falta de alguma coisa não impedia a realização de um todo.
Numa sexta-feira, enquanto todas as mulheres da família se reuniam na casa da minha bisavó para o chá da tarde, eu brincava nos grandes jardins que rodeavam o velho casarão. Por lá existiam pequenas calçadas ladeadas com uma grama chamada pelo-de-urso. Eram tuchos compactos e compridos a formar uma bainha verde-escura emoldurando todo o gramado. Distraído com meu predileto imaginava que aqueles tuchos eram florestas inespugnáveis, cheias de tesouros e aventuras a serem vivenciadas. Em dado momento, o pequeno plúbeo escorregou de minha mão e perdeu-se naquele emaranhado verde! Socorro! Socorro!! Gritava ele desesperado! Parecia escutá-lo. Pela primeira vez seria eu a socorrê-lo! Porém, quanto mais procurava, mais o pânico me roubava o sentido de direção! Logo surgiu minha tia-avó ranzinza a reclamar que estava destruindo as plantas! A partir deste dia, sempre o procurei durante dias, meses...até cair no esquecimento.
Muitos anos depois minha bisavó foi de encontro ao criador e logo após, minhas tias. A enorme casa e o seu entorno ficaram à revelia do tempo.
Já rapaz, passeando naquele cenário de abandono, eis que vejo no meio do que fora um dia a espessa pelo-de-urso o meu soldadinho sem cabeça! Com suas cores desbotadas a revelar seu conteúdo cinza, ainda estava lá em pose solene a ostentar o fuzil!
Imitação da vida! Muitas vezes Deus faz calcinar nossos jardins para que possamos reencontrar os tesouros esquecidos, os valores pétreos que foram lançados e perdidos nas aventuras mundanas. Amigos, familiares, amores, sonhos... todos esquecidos no meio da relva temporal.
No mesmo dia que o encontrei, adormeci com aquele amigo por baixo do travesseiro. Quando amanheceu ele havia desaparecido. Finalmente corpo e cabeça estavam juntos...